quarta-feira, 14 de maio de 2008

Contradições

Este filme não deve ser de certezas: não há tristeza absoluta se não houver a extrema alegria, nem haverá silêncio se não houver barulho. Dessa contradição nasce o drama.

À flor da pele

Não acredito em atuações psicologizantes. Quer dizer, obviamente sei o quanto abordagens psicológicas podem produzir bons resultados para os atores, mas particularmente não acredito nelas como princípio. O fundamento da interpretação neste filme está na busca de experiências e relações físicas que produzam, expressivamente, sentimentos.

Não se trata de formalizar a interpretacão ou sacralizar o gesto, mas sim de humanizar a cena: nada mais humano do que o corpo - frágil, material, imprevisível.

sábado, 29 de março de 2008

Primeira sessão de trabalho

Na primeira sessão de trabalho, 3 semanas atrás, Gui e Cacá estiveram em casa para discutir a metodologia de trabalho. Léo não pode vir, atolado nas gravações da novela em que trabalha.

Há uma coisa muito clara pra mim com relação a este filme: se a idéia é experimentar um processo realmente aberto isso deve acontecer em todos os níveis, da direção à atuação, do texto aos ensaios, e até - quem sabe - no resultado final. O que quero dizer é que esta obra, mesmo que concluída, talvez nunca se feche, como uma obra única, inquestionável, inflexível.

Neste primeiro encontro de trabalho efetivo discutimos diversos temas relacionados à história que pretendemos contar. A idéia aqui é alinhar os temas e conceitos meus com os dos atores, e da intersecção entre eles elaborar o plano de trabalho, explorando os temas comuns.

Esses temas em comum serão meu material de trabalho pelos ensaios, e, talvez, também para a confecção final do texto.

terça-feira, 18 de março de 2008

Pasolini

Quando falamos de Como As Ondas ser uma história mítica, não falamos sobre Pasolini, mas acho que ele pode ajudar a pensar como não ficar refém do "psicológico". Aqui vai um link de um artigo muito bonito sobre ele, é só copiar e colar o endereço, e apertar no botãozinho de download: http://www.overmundo.com.br/banco/anotacoes-sobre-o-corpo-transgressivo-sagrado-e-
erotismo-no-teorema-de-pasolini

sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008

Filmes

Cacá diz, por email, que "Into the wild", o filme do Sean Penn, é um exemplo do que não devemos fazer. Sem ter visto o filme, apenas o trailer, consigo imaginar o que ela quer dizer. Tenho a impressão que há um clima de "lição de moral" no filme, que definitivamente não quero para "Como as ondas". Mas na verdade não sei se é disso que ela está falando.

Um filme controverso mas que certamente tem uma coisa ou duas a ver com o nosso é "Quatro meses, três semanas e dois dias". Já faz um certo tempo que voltou à moda no cinema essa coisa do "tempo extendido", essa busca em alongar a cena em busca de uma determinada sensação de esgotamento do espectador. Esse procedimento tem aparentemente a ver com um registro mais realista, e não por acaso muitos dos cineastas que o praticam tiveram suas origens no documentário.

Na primeira conversa com a Cacá conversamos um pouco sobre isso. Particularmente tenho muitas ressalvas com esse tipo de cinema. Não tenho certeza se isso funciona sempre, e se a sensação de desconforto gerada no espectador é realmente benéfica para as intenções do filme, ou é apenas uma impertinência do diretor. Mas há toda uma linha de cinema sendo praticada na Europa seguindo essa tendência.

"Quatro semanas..." não foge inteiramente a essa corrente. E, em muitos momentos, se revela uma cópia mal feita de outros cineastas como os irmãos Dardenne, por exemplo. Mas em um ou dois momentos propõe uma nova forma de explorar a extensão do tempo.

Nesses momentos, que considero geniais, o diretor cria cenas absolutamente estáticas, câmera parada, mise-en-scene contida. São cenas longas, que ele preenche com uma intensa ação subjetiva (se é que existe esse termo). Ao longo da cena, somos levados a imaginar uma outra ação, uma outra realidade muito distante do que está acontecendo à frente da câmera. E se cria então uma tensão insuportável entre um quadro rígido e uma paisagem imensa que é criada "por trás" da cena, como por exemplo na descrição monocórdica que o homem faz do processo do aborto, ou na mente da personagem principal sentada à mesa do jantar. Essa tensão sim é valorizada pela extensão da cena, como se o mundo imaginado fosse crescendo segundo a segundo, ameaçando romper de forma explosiva com a situação estática proposta no quadro.

Talvez esteja aqui o ponto principal que quero ressaltar: a extensão do tempo usada como forma de ampliar a tensão da cena, e não de exaurí-la.

Esse conflito entre rigidez e liberdade permeia todo o filme, e se, em muitos momentos, ele se perde com recursos gratuitos e até apelativos, nessas cenas consegue concentrar o conflito principal de forma absolutamente cinematográfica. E nos cria um quadro rico, recheado de significados e de intenções, que nos levam a cada vez mais dúvidas, e menos respostas.

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008

Helena de Tróia

Helena, de Tróia, possuía a reputação de "mulher mais bela do mundo". Helena tinha diversos pretendentes, que incluíam muitos dos maiores heróis da Grécia, e o seu pai adotivo, Tíndaro, hesitava tomar uma decisão em favor de um deles temendo enfurecer os outros. Finalmente um dos pretendentes, Odisseu (cujo nome latino era Ulisses), rei de Ítaca, resolveu o impasse propondo que todos os pretendentes jurassem proteger Helena e o marido que ela escolhesse, qualquer que fosse. Helena então se casou com Menelau, que se tornou rei de Esparta.

Helena foi raptada mais de uma vez; a primeira, com dez anos. A segunda, a que originou a famosa guerra de Tróia. Nesta, raptada não por um homem mas por uma ilusão. Levada a Tróia por Páris, catalisou a revolta dos aqueus que movimentaram milhares em uma guerra em seu nome.

Helena de Tróia para mim representa a figura arquetîpica da incerteza feminina; não por ambição ou por determinação, mas simplesmente por necessidade de se arriscar. Enquanto caçada, desejada, cobiçada (como um troféu) por todos a sua volta, ela nunca se sente realmente livre. Helena precisa estar em movimento, em mudança, em conflito.

sábado, 23 de fevereiro de 2008

Músicas e sons

Trabalhar com o Danilo e o Cacá ("o" Cacá Saraiva, parceiro de Danilo) em meu curta anterior foi uma experiência muito recompensadora. Não só fiquei extremamente satisfeito com o resultado final da trilha sonora como imaginei que poderia ter sido muito produtivo envolvê-los desde o início do projeto.

Curiosamente, Danilo foi o primeiro a se envolver realmente com o projeto, lendo o roteiro. E me parece claro que ele terá um papel fundamental não só no resultado final (onde talvez sua música nem apareça tanto...) mas também no processo de construção.

Tenho um método (ou uma mania, sei lá), sempre que estou trabalhando em um roteiro, que é o de criar uma "trilha sonora" para essa idéia. Não se trata realmente de uma trilha para as cenas, mas sim um fio condutor de pensamentos e sensações relacionados à história que estou contando.

Quando a sequência da trilha realmente faz sentido e parece fluida, é pra mim um sinal de que finalmente cheguei ao ponto que queria.

A trilha de trabalho (como denomino) de "Como as ondas" está assim:

1. Don´t - Doris
2. Truth doesn´t make a noise - White Stripes
3. Short Leave - Alamo race Track
4. Bobo on the corner - Beastie Boys
5. Please do not go - Violent Femmes
6. Is this Desire? - PJ Harvey
7. Lust for life - Iggy Pop
8. I´ll be your mirror - Velvet Underground
9. Schizophrenia - Sonic Youth
10. Vertige - Camille
11. Sea of love - Cat Power
12. My body is a cage - Arcade Fire
13. Blackbird - The Beatles

Se eu estou satisfeito com a sequência? Não.